sexta-feira, 24 de abril de 2009

Psicologia Transpessoal

Dentro das várias ramificações da Psicologia – Psicologia Clínica, Psicologia da Educação, Psicologia das Organizações, Psicologia Jurídica, etc. – vamos encontrar várias abordagens, ou seja, maneiras de se explicar a ação humana com base em determinados pontos de vista, ou formas de se interpretar o ser humano, que constituem escolas baseadas em teorias da personalidade: comportamentalista, humanista, psicanalista, etc. Estas áreas e diferentes abordagens, porém, não devem ser mais vistas como contrárias entre si, mas complementares.

Uma forma de se entender isso é lembrarmo-nos da unidade em que se constitui, na sua bela variedade de cores, o arco-íris. São sete cores visíveis, mas não se sabe ou pode-se determinar onde começa uma ou termina a outra. Antes, uma vai se transformando paulatinamente em outra, e, apesar de diferentes, estão juntas em um mesmo todo: o todo que constitui o arco-íris. Da mesma forma, as diferentes abordagens psicoterapias, embora se atenham a uma determinada característica essencial do ser humano, formam, em seu conjunto, um espectro de “cores” que constituem diferentes estados, ou etapas, ou níveis de consciência. Em se estando em um determinado nível ou estado de consciência, tem-se a tendência de explicar tudo a partir daquela determinada “cor”, o que hoje sabemos ser algo bastante limitador da realidade.

Pois bem, esta compreensão aprofundada do “espectro” da consciência é melhor dada por uma área bastante recente da Psicologia, denominada Psicologia Transpessoal, ou a Psicologia dos Estados de Consciência, sendo que a denominação “Transpessoal” significa “para além dos limites do pessoal”, este pessoal, entenda-se, se referindo a uma pequena parte de nossa consciência “consciente”, classicamente denominada “ego”. Espliquemo-nos:

A abordagem Transpessoal é uma área da psicologia que estuda as possibilidades psíquicas (mentais, emocionais, intuitivas e somato-sensoriais) do ser humano pelos diferentes estados ou graus de consciência pelos quais passa a pessoa (para se ter idéia do que seja estados de consciência, lembre-se que o estado de consciência de quando se está acordado é diferente do estado de consciência de quando se está dormindo; que o estado de consciência de quando se resolve um problema de matemática é diferente de quando se assisti a um filme, etc.). Em cada um destes estados de consciência (que são vários, alguns ainda desconhecidos) é experimentada uma forma diferente de se perceber ou interpretar a realidade (quando estamos com raiva ou frustrados, percebemos o mundo de uma maneira muitíssimo diversa de quando estamos apaixonados). A Psicologia Transpessoal, portanto, volta-se para o estudo destes diversos estados, não os encarando como contrários, mas como complementares, dando, porém, especial ênfase aqueles estados de consciência superiores, espirituais ou “transpessoais”, porque em tais estados, o sentimento de separação e de egoísmo tornar-se um segundo plano em relação a um sentimento e identificação mais ampla, cooperativa, fraternal, transpessoal para com todos os seres vivos (consciência crística, búdica, nirvânica, universal ou ecológica). E foram exatamente os grandes mestres, quer religiosos (Cristo, Buda, Francisco de Assis), quer científicos (Einstein, Tesla, Heisenberg), quer políticos (Gandhi, Luther King), quer artísticos (Bach, Da Vinci) que experimentaram, em graus variáveis, picos de “Consciência Cósmica” que mudaram não só suas próprias percepções da realidade, como ajudaram a outros (embora de modo diferente, pois a experiência não pode ser facilmente posta em palavras) a atingirem ao menos uma intuição desta “outra maneira de ver e sentir” o mundo, natural e humano.

Vejamos esta descrição, feita por Stanislav Grof, de experiências correlacionadas com o declínio de uma patologia (extraído, com comentários meus, de Fadiman & Frager, 1986, página 168):

"No estado de consciência 'normal' ou usual, o indivíduo se experimenta existindo dentro dos limites de seu corpo físico (a imagem corporal), e sua percepção do meio ambiente é restringida pela extensão, fisicamente determinada, de seus órgãos de percepção externa; tanto a percepção interna quanto a percepção do meio ambiente estão confinadas dentro dos limites do espaço e do. Em experiências psicodélicas (área explorada por Grof em fins dos anos 50, na Tchecoslováquia, e nos anos 60 nos EUA) de cunho transpessoais, uma ou várias destas limitações parecem ser transcendidas (este fenômeno também se encontra, de modo esporádico, nas várias terapias psicológicas, tendo recebido nomes como "Experiências Oceânicas" em Freud, "Experiências Culminates" em Maslow, "Consciência Cósmica", em Weil, "Experiência Mística", etc). Em alguns casos, o sujeito experiencia um afrouxamento de seus limites usuais de ego e sua consciência e autopercepção parecem expandir-se para incluir e abranger outros indivíduos e elementos do mundo externo. Em outros casos, ele continua experienciando sua própria identidade, mas numa percepção de tempo diferente, num lugar diferente ou em um diferente contexto. Ainda em outros casos, o individuo pode experienciar uma completa perda de sua própria identidade egóica e uma total identificação com a consciência de uma 'outra' entidade. Finalmente, numa categoria bastante ampla destas experiências psicodélicas transpessoais (experiências arquetípicas, união com Deus, etc.), a consciência do sujeito parece abranger elementos que não têm nenhuma continuidade com a sua identidade de ego usual e que não podem ser considerados simples derivativos de suas experiências do mundo tridimensional".

São, pois, estas experiências culminantes e transuamas, bem como suas conseqüências no comportamento humano, que são o foco central da Psicologia Transpessoal.

Foi em meados da década de sessenta, durante o rápido desenvolvimento e aceitação dos pressupostos básicos da psicologia humanista, com Maslow e Rogers, que alguns psicólogos e psiquiatras começaram a discutir quais os limites e características a que seria possível chegar o potencial da consciência humana. Muitos pesquisadores achavam que a visão da psique dada pela Psicanálise e pelo Behaviorismo eram, no mínimo, bastante simplificadas e reducionistas, não explicando uma grande gama de fenômenos mentais que escapavam - e muito - do campo de alcance de tais teorias. E a Psiquiatria dava ainda menos clareza sobre uma ampla gama de estados de consciência claramente chocantes e, ao mesmo tempo, fascinantes, que não podiam se restringir unicamente à história orgânico-biográfica de alguns pacientes. Ademais, existiam pessoas de grande capacidade humana que possuíam experiências de consciência que não se enquadravam nas teorias vigentes da Psicologia. Daí a necessidade de estudar os estados não-ordinários positivos, ou “Transpessoais”, de percepção e consciência...

Eis as palavras de Maslow anunciando o desenvolvimento da Psicologia Transpessoal:

"Devo também dizer que considero a Psicologia Humanística, ou Terceira Força em Psicologia, apenas transitória, uma preparação para uma Quarta Força ainda "mais elevada", transpessoal, transumana, centrada mais na ecologia universal do que nas necessidades interesses restritos ao ego, indo além da identidade, da individuação e congêneres... Necessitamos de algo "maior do que somos", que seja respeitado por nós mesmos e a que nos entreguemos num novo sentido, naturalista, empírico, não-eclesiástico, talvez como Thoreau e Whitman, William James e John Dewey fizeram".

Fonte: Carlos Antonio fragoso Guimarães

Bibliografia:
Capra, Fritjof. - O Ponto de Mutação, Editora Cultrix, São Paulo, 1986.
Grof, Stanislav. - Além do Cérebro, Editora McGraw-Hill, São Paulo, 1988.
Fadiman, J. & Frager, R.- Teorias da Personalidade, Editora Harbra, São Paulo, 1986.
Maslow, Abraham. - El hombre Autorealizado, Editora Kairós, Barcelona, 1990.
Walsh, R. & Vaughan, F.- Além do Ego: Dimensões Transpessoais em Psicologia, Editora Cultrix, São Paulo, 1991.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

A Memória Humana

A memória é a capacidade de adquirir (aquisição), armazenar (consolidação) e recuperar (evocar) informações disponíveis, seja internamente, no cérebro (memória biológica), seja externamente, em dispositivos artificiais (memória artificial).
A memória focaliza coisas específicas, requer grande quantidade de energia mental e deteriora-se com a idade. É um processo que conecta pedaços de memória e conhecimentos a fim de gerar novas idéias, ajudando a tomar decisões diárias.
Os psicólogos e neurologistas distinguem memória declarativa de memória não-declarativa. A Grosso modo, a memória declarativa armazena o saber que algo se deu, e a memória não-declarativa o como isto se deu.
A memória declarativa, como o nome sugere, é aquela que pode ser declarada (fatos, nomes, acontecimentos, etc.) e é mais facilmente adiquirida, mas também mais rapidamente esquecida. Para abranger os outros animais (que não falam e logo não declaram, mas obviamente lembram), essa memória também é chamada explícita. Memórias explicitas chegam ao nível consciente. Esse sistema de memória está associado com estruturas no lobo temporal medial (ex: hipocampo, amigdala).
Psicólogos distinguem dois tipos de memória declarativa, a memória episódica e a memória semântica. São instâncias da memória episódica as lembranças de acontecimentos específicos. São instâncias da memória semântica as lembranças de aspectos gerais.
Já a memória não-declarativa, também chamada de implícita ou procedural, inclui procedimentos motores (como andar de biscicleta, desenhar com precisão ou quando nos distaímos e vamos no "piloto automático" quando dirigimos). Essa memória depende dos gãnglios basais (incluindo o corpo estriado) e não atinge o nível de consciência. Ela em geral requer mais tempo para ser adquirida, mas é bastante duradoura.
Memória, segundo diversos estudiosos, é a base do conhecimento. Como tal, deve ser trabalhada e estimulada. É através dela que damos significado ao cotidiano e acumulamos experiências para utilizar durante a vida.

Tipos de Memória

1 - Memória declarativa. É a capacidade de verbalizar um fato. Classifica-se por sua vez em:
2 - Memória imediata. É a memória que dura de frações a poucos segundos. Um exemplo é a capacidade de repetir imediatamente um número de telefone que é dito. Estes fatos são após um tempo completamente esquecidos, não deixando "traços".
3 - Memória de curto prazo. É a memória com duração de algumas horas. Neste caso existe a formação de traços de memória. O período para a formação destes traços se chama de Período de consolidação. Um exemplo desta memória é a capacidade de lembrar do que se vestiu no dia anterior, ou com quem se encontrou.
4 - Memória de longo prazo. É a memória com duração de meses a anos. Um exemplo é a capacidade de aprendizado de uma nova língua.
5 - Memória de procedimentos. É a capacidade de reter e processar informações que não podem ser verbalizadas, como tocar um instrumento ou andar de bicicleta. Ela é mais estável, mais difícil de ser perdida.

Sua História

Até meados do século XX, a maioria dos estudos sobre aprendizagem questionava que as funções da memória seriam localizadas em regiões cerebrais específicas, alguns chegando a duvidar de que a memória seria uma função distinta da atenção, da linguagem e da percepção. Acreditava-se que o armazenamento da memória seria distribuído por todo o cérebro.
A partir de 1861, Broca evidencia que lesões restritas à parte posterior do lobo frontal, no lado esquerdo do cérebro, chamada de área de Broca, causavam um defeito específico na função da linguagem. Após essa localização da função da linguagem, os neurocientistas tornaram a voltar-se para a hipótese de se localizar a memória.
Wilder Penfield foi o primeiro a conseguir demonstrar que os processos da memória têm localizações específicas no cérebro humano. Penfield havia estudado com o pioneiro em neurofisiologia, Charles Sherrington. Na década de 1940, Penfield começou a usar métodos de estimulação elétrica, idênticos aos usados por Sherrington em macacos, para mapear as funções motoras, sensoriais e da linguagem no córtex humano de pacientes submetidos à neurocirurgia, para tratamento de epilepsia. Penfield explorou a superfície cortical em mais de mil pacientes e verificou que a estimulação elétrica produzia o que ele chamou de resposta experiencial, ou retrospecção, na qual o paciente descrevia uma lembrança correspondente a uma experiência vivida.
Estudos em pacientes com lesão do lobo temporal (pioneiramente com o paciente H.M) revelaram dois modos particularmente diferentes de aprendizagem, diferença que os psicólogos cognitivistas avaliaram em estudos com sujeitos normais. O ser humano aprende o que é o mundo apreendendo conhecimento sobre pessoas e objetos, acessíveis à consciência, usando uma forma de memória que é em geral chamada de explícita, ou aprende como fazer coisas, adquirindo habilidades motoras ou perceptivas a que a consciência não tem acesso, usando para isto a memória implícita.

Bases Anatômicas da Memória

Hoje é possível afirmar que a memória não possui um único lócus. Diferentes estruturas cerebrais estão envolvidas na aquisição, armazenamento e evocação das diversas informações adquiridas por aprendizagem.

Memória de curto prazo

Depende do sistema límbico, envolvido nos processos de retenção e consolidação de informações novas. Hoje em dia também se supõe que a consolidação temporária da informação envolve estruturas como o hipocampo, a amígdala, o córtex entorrinal e o giro para-hipocampal, sendo depois transferida para as áreas de associação do [[neocórtex parietal] e temporal. As vias que chegam e que saem do hipocampo também são importantes para o estudo da anatomia da memória. Inputs (que chegam) são constituídos pela via fímbria-fórnix ou pela via perfurante. Importantes projecções de CA1 para os córtices subiculares adjacentes fazem parte dos outputs (que saem) do hipocampo. Existem também duas vias hipocampais responsáveis por interconexões do próprio sistema límbico, como o Circuito de Papez (hipocampo, fórnix, corpos mamilares, giro do cíngulo, giro para-hipocampal e amígdala), e a segunda via projeta-se de áreas corticais de associação, por meio do giro do cíngulo e do córtex entorrinal, para o hipocampo que, por sua vez, projeta-se através do núcleo septal e do núcleo talâmico medial para o córtex pré-frontal, havendo então o armazenamento de informações que reverberam no circuito ainda por algum tempo.

Memória de trabalho

Compreende um sistema de controle de atenção (executiva central), auxiliado por dois sistemas de suporte (Alça Fonológica e Bloco de Notas Visuoespacial) que ajudam no armazenamento temporário e na manipulação das informações. O executivo central tem capacidade limitada e função de seleccionar estratégias e planos, tendo sua actividade relacionada ao funcionamento do lobo frontal, que supervisiona as informações. Também o cerebelo está envolvido no processamento da memória operacional, actuando na catalogação e manutenção das sequências de eventos, o que é necessário em situações que requerem o ordenamento temporal de informações. O sistema de suporte vísuo-espacial tem um componente visual, relacionado à região occipital e um componente espacial, relacionado a regiões do lobo parietal. Já no sistema fonológico, a articulação subvocal auxilia na manutenção da informação; lesões nos giros supramarginal e angular do hemisfério esquerdo geram dificuldades na memória verbal auditiva de curta duração. Esse sistema está relacionado à aquisição de linguagem.
Memória de longo prazo

a. Memória explícita:

Depende de estruturas do lobo temporal medial (incluindo o hipocampo, o córtex entorrinal e o córtex para-hipocampal) e do diencéfalo. Além disso, o septo e os feixes de fibras que chegam do prosencéfalo basal ao hipocampo também parecem tem importantes funções. Embora tanto a memória episódica como a semântica dependam de estruturas do lobo temporal medial, é importante destacar a relação dessas estruturas com outras. Por exemplo, pacientes idosos com disfunção dos lobos frontais têm mais dificuldades para a memória episódica do que para a memória semântica. Já lesões no lobo parietal esquerdo apresentam prejuízos na memória semântica.

b. Memória implícita:

A aprendizagem de habilidades motoras depende de aferências corticais de áreas sensoriais de associação para o corpo estriado ou para os núcleos da base. Os núcleos caudado e putâmen recebem projecções corticais e enviam-nas para o globo pálido e outras estruturas do sistema extra-piramidal, constituindo uma conexão entre estímulo e resposta. O condicionamento das respostas da musculatura esquelética depende do cerebelo, enquanto o condicionamento das respostas emocionais depende da amígdala. Já foram descritas alterações no fluxo sanguíneo, aumentando o do cerebelo e reduzindo o do estriado no início do processo de aquisição de uma habilidade. Já ao longo desse processo, o fluxo do estriado é que foi aumentado. O neo-estriado e o cerebelo estão envolvidos na aquisição e no planeamento das acções, constituindo, então, através de conexões entre o cerebelo e o tálamo e entre o cerebelo e os lobos frontais, elos entre o sistema implícito e o explícito.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Albert Bandura

Bandura é considerado teórico da aprendizagem social, pois se interessou pela aprendizagem decorrente do contato entre duas pessoas. Para ele, psicólogo behaviorista contemporâneo, a pessoa aprende muito por imitação. Durante interações sociais, o indivíduo pode modificar seu comportamento, como resultado da observação de como as outras pessoas do grupo reagem. Embora reconheça a importância do condicionamento de Skinner, Bandura insisti em dizer que nem toda aprendizagem ocorre como resultado do reforçamento direto de respostas. A oposição de Bandura é decorrente das experiências feitas por ele, as quais provaram que para a ocorrência de uma ação não é necessário oferecer uma recompensa. Bandura faz várias criticas as pesquisas individualizadas e com animais. Como é característico do ser humano a socialização, são raros os casos de isolamento social. Por isso, segundo ele, as pesquisas devem ser feitas com grupos. E não se deve utilizar animais nas experiências, uma vez que a aplicação será nos humanos e estes possuem sentimentos, são racionais, diferentemente dos animais. Seus princípios de aprendizagem social também podem ser aplicados na modificação de comportamentos agressivos. Estes são adquiridos através do exemplo, da experiência direta e da interação com fatores estruturais. Bandura ainda demonstra algumas maneiras de se reduzir a agressão. Também tem sido muito utilizadas suas terapias comportamentais em várias situações.

Biografia

Albert Bandura nasceu em 04/12/1925 na cidadezinha de Mundare ao norte de Alberta, no Canadá. Estudou em uma escola do ensino fundamental e ensino médio de poucos recursos. Depois trabalhou durante um verão preenchendo buracos sobre o Alaska Higway em Yukou. Formou-se em bacharel em psicologia pela Universidade da Colúmbia Inglesa em 1949, e recebeu o título de doutor pela Universidade do Estado de Iowa, em 1952, onde foi influenciado pela tradição do behaviorismo e pela teoria da aprendizagem. Começou a ensinar a Universidade de Stanford em 1953, e com a ajuda de um dos seus primeiros alunos formados, Richard Walters, escreveu seu primeiro livro "Adolescent Aggression", em 1959. Entretanto, Walters morreu jovem em um acidente de carro. A partir dos anos 60, ele propôs uma versão do comportamentalismo inicialmente definida como abordagem sócio comportamentalista, mas depois denominada teoria cognitiva social (Bandura, 1986). O professor Bandura foi presidente da associação Americana de Psicologia em 1974 e recebeu desta o prêmio por Ilustres Contribuições Científicas em 1980. Ele entrou para a Universidade de Stanford em 1953, onde trabalha até os dias de hoje.

Principais Interesses

Bandura fez treinamento em psicologia clínica e ao longo dos anos, tem demonstrado inovações na área da aprendizagem, observando problemas motivacionais sutis, relacionados à agressão e, ultimamente, tem olhado para a agressão definida em termos de moralidade e de códigos morais. Também formulou uma versão do comportamentalismo denominada teoria cognitiva social.

A teoria cognitiva social

Apesar da teoria cognitiva social de Bandura ser uma forma de comportamentalismo menos extrema do que a de Skinner, a abordagem permanece ainda comportamentalista. Bandura procura concentrar-se na observação do comportamento dos indivíduos em interação. E ressalta o papel do reforço na aquisição e modificação dos comportamentos. Para Bandura, as respostas comportamentais não são automaticamente "produzidas" por estímulos externos como a de um robô ou uma máquina, mas sim, as reações a estímulos são auto-ativadas. Quando um reforço exterior altera o comportamento, ele o faz porque o indivíduo tem percepção consciente do que está sendo reforçado e antecipa o mesmo reforço por comportar-se da mesma maneira. Mesmo concordando com Skinner que o comportamento humano pode modificar-se ao reforço, Bandura acredita, porém, que a imitação é um princípio de aprendizagem em si próprio e que a aprendizagem pode-se fazer por reforçamento, seja ao próprio indivíduo, seja a um modelo. Essa capacidade para aprender pelo exemplo supõe a aptidão de antecipar e avaliar conseqüências apenas observadas em outras pessoas e ainda não vivenciadas. Portanto não há uma ligação entre um estímulo e uma resposta, ou entre comportamento e reforço, como havia no caso do sistema de Skinner. Entretanto, há um mecanismo mediador, interposto entre os dois; esse mecanismo são os processos cognitivos da pessoa. E, a modelagem ou a aprendizagem observacional envolve, em grande parte esses processos cognitivos.

Aprendizagem por observação ou modelagem

Bandura usa o termo modelagem, enquanto que Miller usou o termo imitação e Freud, identificação. Ele distingue estes termos ao esclarecer que imitação significa a duplicação exata do que o modelo faz, e a identificação geralmente envolve-se numa incorporação indiscriminada dos modelos de comportamento. Utiliza o termo modelagem porque os efeitos psicológicos da exposição aos modelos são muito mais amplos do que o simples mimetismo da resposta, contido no termo imitação; e as características definidoras da identificação são empiricamente questionáveis. Uma das grandes contribuições de Bandura ao ponto de vista do behaviorismo consiste na ênfase da aprendizagem por modelos. Não é essencial executar-se a resposta e esta ser reforçada para que ocorra aprendizagem. Muitos padrões de comportamento são aprendidos através da observação de modelos, mesmo se não é identificado nem mesmo uma atuação de reforçamento vicário (reforço ao modelo, tendo um efeito sobre o comportamento do observador).

Há três efeitos que os modelos podem produzir:

1. Aquisição de novos comportamentos.
2. Aumento ou diminuição de inibições do comportamento observado
3. Facilitação social, ou seja, aparecimento de comportamentos que não são novos no repertório do observador, mas que não podem ser atribuídos a fatores de inibição ou desinibição por se tratar de comportamentos socialmente aceitos.

Num estudo que se tornou famoso, Bandura observou o resultado ao submeter crianças a uma determinada situação, utilizando o adulto como modelo. Ele separou um grupo de crianças - Os Alunos do "João Bobo". Escolheu uma mulher para ser filmada batendo num grande boneco de plástico inflável, tipo "João Bobo". A moça o socou, gritando "boboca", o chutou, o golpeou com um martelinho e gritou muitas frases agressivas. Bandura mostrou este filme às crianças do jardim da infância que, como ele esperava, adoraram. Quando foram brincar, muitos observadores as esperavam com o lápis, prancheta na mão e, para as crianças, um "João Bobo" novo e alguns martelinhos. Os observadores registraram que muitas delas fizeram exatamente o que viram a moça do filme fazer. O que surpreende é o fato de que as crianças mudaram seu comportamento sem que tivessem sido recompensadas por suas aproximações ao novo comportamento, e isto não se encaixa ao padrão de aprendizagem do behaviorismo. Bandura chamou o fenômeno de Aprendizagem por Observação ou Modelagem, e sua teoria é comumente chamada Teoria da Aprendizagem Social. Quando o estudo foi criticado sob a alegação de que o boneco "João Bobo" foi criado mesmo para apanhar, Bandura filmou a moça acertando uma pessoa vestida de palhaço. Depois de assistirem ao filme, as crianças foram até a sala do palhaço vivo e não tiveram dúvidas: bateram nele! Dessas variações, Bandura pôde observar alguns passos envolvidos no processo de modelagem:

1. Atenção: para prender qualquer coisa é preciso prestar atenção. Do mesmo modo, quando a atenção é tirada não se obtém uma boa aprendizagem, mesmo a aprendizagem por observação. Estar sonolento, embriagado, drogado, nervoso, também atrapalha a aprendizagem. As características do modelo também determinam o grau de atenção. Quanto mais colorido, dramático, mais ele será atrativo, e se o modelo for semelhante ao observador, mais ele lhe prestará atenção. Estas conclusões levaram Bandura a uma análise dos efeitos da televisão sobre as crianças.

2. Retenção: é preciso absorver o que se aprendeu prestando atenção. É aí que entram a imagem e a linguagem: é possível armazenar mentalmente o formato ou descrição verbal do modelo e depois relembra-lo e reproduzi-lo sobre seu próprio comportamento.

3. Reprodução: para incorporar o modelo observado em seu comportamento é preciso ter condições de repeti-lo. Observar uma ginasta profissional não basta para que uma pessoa comum saia imitando-a, mas se a pessoa tem um certo treinamento, ao observar o atleta olímpico pode levá-la a se aperfeiçoar. Nossa habilidade para imitar aprimoramentos por meio da prática do comportamento envolvido também é importante, assim como conseguir imaginar como será nossa performance e buscar por ela. Muitos atletas fazem isso.

4. Motivação: deve se ter uma razão para imitar o comportamento. Bandura enumerou algumas motivações:

a. Reforço anterior: behaviorismo tradicional.
b. Reforço prometido: (incentivos) que podemos imaginar.
c. Reforço vicarial: vendo e recordando o modelo sendo reforçado. Estes itens são tradicionalmente considerados causas de aprendizagem. Bandura diz que eles não só proporcionam aprendizagem, como também demonstram o que é aprendido. Por isso, caracteriza estes itens como motivos. Há também, as motivações negativas que levam a pessoa a não imitar um comportamento:
d. Castigo anterior
e. Castigo prometido (ameaça)
f.Castigo vicarial Como grande behaviorista tradicional, Bandura afirma que o castigo, em qualquer forma, não funciona tão bem quanto uma recompensa, e ainda corre-se o risco de ser alvo de uma vingança.

A auto-eficácia

A auto-eficácia é descrita como um julgamento sobre a própria capacidade de conseguir um determinado desempenho ou resultado, uma sensação de adequação e eficiência em tratar dos problemas da vida. Através de suas obras, Bandura mostrou que pessoas de auto-eficácia elevada acreditam que são capazes de lidar com todas as situações de sua vida. Como elas esperam superar obstáculos, buscam desafios e mantêm um alto nível de confiança em sua capacidade para ter êxito. Entretanto, as pessoas de baixa auto-eficácia sentem-se incapazes de realizar algo. Muitas vezes desistem de tentar resolver os problemas quando seus esforços iniciais fracassam. Quanto ao desenvolvimento da auto-eficácia, Bandura considera que ambientes que proporcionam oportunidades para experiência, facilitam a aquisição do senso de auto-eficácia; a família como fonte de aprendizagem de auto-eficácia; a escola como ambiente básico para a manutenção e validação social desta; e tanto na adolescência como na vida adulta, há nossos desafios à percepção de auto-eficácia e na meia idade há as redefinições de metas e projetos e de readaptação do senso desta. Para as pessoas que possuem auto-eficácia baixa, Bandura recomenda três passos:

1. Trabalhando a auto-observação - conhecer-se e ter certeza de ter uma visão exata de seu comportamento.
2. Trabalhando os padrões - certificar-se de que os padrões que a pessoa estabeleceu não sejam inatingíveis. Não se destinar ao fracasso. Padrões muitos baixos também não têm sentido.
3. Trabalhando a auto-resposta – não se castigar. Celebrar as vitórias e não se perder sobre os fracassos. Portanto, quanto maior a auto-eficácia maior o esforço e a persistência. E nas situações de escolha, a auto-eficácia influi na decisão de fazer ou não alguma coisa. Quanto a produção do comportamento, afeta a motivação, mas não cria novas habilidades.

Agressão

Primeiramente, Bandura começou estudando a agressão em crianças. Juntamente com Dick Walters, fizeram um estudo de campo sobre antecedentes familiares na agressão, e descobriram que os melhores precursores eram o estilo de vida que as famílias exemplificavam e reforçavam. O comportamento que os pais mostravam e as atitudes que eles exibiam quanto a expressão da agressão, tanto em casa como fora dela, emergiram como determinantes de importância. Começou, então, a desenvolver estudos de laboratório e também paradigmas de modelagem, para examinar sistematicamente os efeitos da exposição a modelos agressivos sobre o comportamento das crianças. Os estudos experimentais em que foram utilizadas metodologias rigorosas, demonstraram que, a curto prazo, a exposição a modelos agressivos na televisão conduz a comportamentos agressivos nas crianças expectadoras, o que confirma a posição teórica de Bandura a respeito do fator modelo na aquisição e manutenção de comportamentos. Ou seja, o comportamento agressivo se adquiri através do exemplo, através da experiência direta e também da interação com fatores estruturais. As pessoas são instigadas à agressão por influências modeladoras, vendo outros agredirem. E através de experiências adversativas – insultos pessoais, ataques físicos, oposição ao comportamento dirigido a uma meta, reduções adversas na qualidade da vida.
A agressão é mantida por vários fatores. É mantida por conseqüências externas – recompensas materiais, recompensas sociais e status. Ela é também reforçada quando as pessoas aliviam o tratamento primitivo através de recursos defensivos. O desempenho da agressão é afetado pelas recompensas ou punições observadas – reforço substitutivo. Uma das melhores maneiras de reduzir a agressão é através do fortalecimento de outras respostas que tenham valor funcional. Por exemplo, verifica-se que pessoas que recorrem à agressão física para resolver seus conflitos interpessoais geralmente têm baixa habilidade verbal (daí uma ocorrência maior de agressão física na classe social baixa). Se aprenderem a resolver verbalmente este tipo de conflito, o comportamento de agressão decresce. Outra maneira de modificar o comportamento agressivo é através da apresentação de modelos que exibam respostas socialmente aceitas (por exemplo, cooperação). No livro sobre agressão, Bandura destaca quatro formas diferentes para tentar reduzir a modelagem comercial da violência na televisão. Uma delas refere-se ao controle pelo Congresso. É através da proibição daquilo que não tem valor que as mudanças de comportamento são bem estabelecidas. A segunda abordagem é o autocontrole da produção. Como o gênero ação-aventura é econômico, os programas violentos tornaram-se predominantes na televisão. Outra abordagem é o desenvolvimento de um sistema para monitorar o nível de violência e por último, o desenvolvimento de uma programação alternativa, fora dos meios comerciais, através da qual influenciaria a televisão comercial.

Terapia

A forma de terapia comportamental de Bandura é famosa e tem sido utilizada em diversos estudos experimentais. Ela tem se mostrado eficaz na eliminação de fobias com relação a cobras, espaços fechados, espaços abertos e lugares altos, e no seu tratamento de distúrbios obsessivo-compulsivos, disfunções sexuais e algumas formas de ansiedade. Também se mostrou útil no aumento da auto-eficácia, sendo aplicada amplamente em situações da sala de aula e na indústria.

Terapia do Auto-Controle

Os fundamentos da Auto-eficácia são incorporados às técnicas de terapia chamada Terapia do Auto-Controle. Ela tem apresentado sucesso na solução de problemas de hábitos como fumar, comer muito ou problemas com estudo.

1. A Auto-Observação requer que a pessoa controle de perto seu comportamento, tanto antes quanto depois de iniciar as mudanças. Isto pode envolver coisas tão simples como contar quantos cigarros a pessoa fuma por dia, e até comportamentos mais complexos. Com essas observações diárias, tem se uma idéia da dimensão do hábito e conhecerá o que está relacionado ao hábito: fuma-se mais após as refeições, com café, com certos amigos, em certos lugares...?
2. Começa-se a alterar o meio em que a pessoa vive: livrar-se dos cinzeiros, trocar o café pelo chá, afastar-se do companheiro fumante. Analisa-se qual movimento e lugar é apropriado para incentivar um bom comportamento: quando e onde a pessoa acha que estuda melhor, por exemplo.
3. A pessoa deve recompensar-se quando seguir seu plano, e arranjar um possível castigo caso não consiga desenvolve-lo. Estes contratos devem ser redigidos e testemunhados (terapeuta, por exemplo), e os detalhes devem ser bem especificados.

Terapia de modelagem

A terapia de modelagem é utilizada na modificação do comportamento, levando os sujeitos a observarem um modelo numa situação que consideram assustadora ou causadora de ansiedade. Por exemplo, crianças que temem cão, observam outra criança de sua idade aproximando-se progressivamente de um cachorro; em seguida, afagando-o através das barras de um cercado e depois entrando neste para brincar com o cão. Como resultado desta aprendizagem observacional, o medo da criança se reduz pronunciadamente. Também são utilizados outros objetivos temidos como uma cobra.

Envolvimento com Questões Educacionais

Antigamente, a convivência das crianças com a família era mais intensa, sendo que os pais e pessoas mais próximas eram tomados como exemplo. Atualmente além dos pais, o professor da classe pode ser o modelo mais importante no ambiente da criança. Sabe-se de muitas crianças que copiam tão exatamente o comportamento de seu professor (ou professora) que "se tornam" esse professor quando estão interagindo com seus irmãos mais novos no lar. Preferências ou aversões do professor para com a matéria em estudo podem ser percebidas pelos alunos e resultam em atitudes imitativas. O professor que ama música, mas odeia matemática, pode transmitir esses sentimentos à classe. Desse modo criam-se bloqueios à matemática, e os alunos podem ser permanentemente afetados. Outros tipos de comportamento negativo do professor podem também ser imitados pelos alunos. Uma professora de primeiro ano, para manter a disciplina que ela considerava apropriada à classe, gastava muito tempo gritando com as crianças. Os pais de uma dessas crianças notaram que, diariamente, depois da aula, ela fechava-se no quarto e gritava com as bonecas (usando as palavras da professora). A atitude do professor para com alunos de grupos minoritários (negros, imigrantes, alunos de religião diferente da maioria) pode ter também um efeito significativo: no modo como esses alunos aprendem a perceber a si próprios, e também na forma como os colegas os vêem. Em resumo, os professores fornecem condições para a aprendizagem na sala de aula, não somente pelo que dizem, mas também pelo que fazem.

Autores que utilizou como referência

Em Iowa, Bandura foi influenciado por Kenneth Spence, que tinha trabalhado com Clark Hull (1943, 1951,1952) em Yale, e pelos escritos de Miller e Dollard, principalmente com o livro "Imitação e aprendizagem" escrito por eles. Este foi um estímulo para alguns dos seus primeiros trabalhos: "Social Learning and Imitation" Interessou-se pelo desenvolvimento da noção de experiência substitutiva e da série de fenômenos que poderiam ser explicados através de uma abordagem de aprendizagem social. Com base na teoria da aprendizagem de Hull, na teoria Skinneriana e nos conceitos de modelagem e imitação, sua pesquisa resultou em uma notável abordagem da modificação do comportamento mais ampla e mais orientada pelo social, que ele chama de Teoria da Aprendizagem Social.

Autores aos quais se contrapunha

Embora Bandura concorde com Skinner que o comportamento humano pode modificar-se devido ao reforço, suas concepções diferem das dele: para Bandura, em vez do ser humano aprender pela vivência direta do reforço, aprende por meio da modelagem, observando outras pessoas e estabelecendo os padrões de seu comportamento; mas para Bandura, quem controla os modelos de uma sociedade controla o comportamento. Ele também critica Skinner ao estudar apenas sujeitos individuais, e principalmente ratos e pombos, em vez de sujeito humano interagindo uns com os outros. Bandura ainda apresenta séria crítica, questionando a linha de pesquisa que se desenvolveu bastante na direção de atribuir agressão a fatores constitucionais ligados ao sexo, principalmente aquela que se refere ao cromossomo sexual masculino Y. Em 1965, Jacobs, Brunton e Melville publicaram um trabalho relatando a incidência mais alta do síndrome XYY (um cromossomo Y a mais) em deficientes mentais internados por crimes violentos (2,9%), em comparação com a população geral (0,2%). A confirmação desses resultados traria forte evidência para a idéia de que agressividade estaria associada ao sexo masculino. No entanto, Bandura questiona essas evidências propostas pelos estudos genéticos uma vez que, segundo ele, os prisioneiros da pesquisa original de Jacobs et Alli raramente agrediam pessoas e que 88% de suas ofensas foram contra a propriedade.

Conclusão

As pesquisas de Bandura, suas teorias e aplicações foram bem aceitas na psicologia. Foram utilizadas no estudo do comportamento em laboratório e em sua modificação em clínica. Para ele, as pessoas aprendem muito através da imitação, o que o levou a interessar-se pela aprendizagem pela observação e a formular sua teoria cognitiva social, envolvendo-se com questões referentes à agressão e a auto-eficácia. Bandura também desenvolveu terapias comportamentais que têm sido utilizadas em várias situações na nossa atual sociedade, ou seja, uma sociedade tecnológica, na qual a importância do fator modelo é enorme. As crianças aprendem não apenas o que lhes é dito que devem fazer, mas principalmente o que vêem ser feitos por outras pessoas. Enquanto antigamente os modelos eram quase que exclusivamente os pais e membros mais próximos da família, hoje os modelos são fornecidos geralmente pelos jornais, revistas, cinema e, especialmente, a televisão. Pode-se destacar a grande importância da aplicação dos estudos de Bandura nas questões educacionais, podendo ser bem estabelecidas pelas escolas, onde bons professores podem servir de modelos a fim de incentivar ou estimular o gosto pelo estudo, uma vez que imitação do professor, feita pelos alunos, é evidente dentro das salas de aula.

Fonte: http://www.geocities.com/eduriedades/albertbandura.html

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Psicoterapia e Psicodrama

"Um Encontro de dois: olhos nos olhos, face a face.
E quando estiveres perto, arrancar-te-ei os olhos e colocá-los-ei no lugar dos meus;
E arrancarei meus olhos para colocá-los no lugar dos teus;
Então ver-te-ei com os teus olhos e tu ver-me-ás com os meus."
(J.L.Moreno)


Qualquer situação de vida que de alguma maneira ofereça algum esclarecimento em relação ao objeto de busca, alguma sistematização técnica em relação à busca e algum controle sobre as variáveis de comportamento de si mesmo e do outro funciona como um processo acelerador do desenvolvimento psíquico, e dentre os processos aceleradores do desenvolvimento psíquico conhecidos, o mais completo e eficiente chama-se Psicoterapia.

A Psicoterapia clareia e conscientiza o objeto de busca, na medida em que norteia o individuo sobre as faltas externas. Ajuda a conscientizar o medo de ser submetido e ao mesmo tempo a necessidade que se tem de alguém que cobre determinados limites. É um conjunto de procedimentos inter-relacionais que possibilita a orientação adequada e aceleração sistematizada do processo de busca.

Um dos objetivos do Psicodrama, do Sociodrama e da Psicoterapia de Grupo é descobrir, aprimorar e utilizar os meios que facilitem o predomínio de relações télicas sobre relações transferenciais, no sentido moreniano. À medida que as distorções diminuem e que a comunicação flui, criam-se condições para a recuperação da criatividade e da espontaneidade. Moreno pretendia que a ação dramática terapêutica levasse a algo mais do que a mera repetição de papéis tais como são desempenhados do cotidiano. A ação dramática permite insights profundos por parte do protagonista e do grupo, a respeito do significado dos papéis assumidos.

Para Moreno, toda ação é interação por meio de papéis. Para agir em conjunto ou de forma combinada as pessoas precisam de um tempo de preparação.

Teoria do Psicodrama

A Espontaneidade é a capacidade de agir de modo "adequado" diante de situações novas, criando uma resposta inédita ou renovadora ou, ainda, transformadora de situações preestabelecidas. É um fator que permite ao potencial criativo atualizar-se e manifestar-se.
Tele é a capacidade de se perceber de forma objetiva o que ocorre nas situações e o que se passa entre as pessoas. O Fator Tele influi decisivamente sobre a comunicação, pois só nos comunicamos a partir daquilo que somos capazes de perceber. É também a percepção interna mútua entre dois indivíduos.
Empatia Tendência para se sentir o que se sentiria caso se estivesse na situação e circunstâncias experimentadas pela outra pessoa.
Co-inconsciente são vivências, sentimentos, desejos e até fantasias comuns a duas ou mais pessoas, e que se dão em "estado inconsciente".
Matriz de Identidade, é o lugar do nascimento. Placenta social pois, à maneira da placenta, estabelece a comunicação entre a criança e o sistema social da mãe, incluindo aos poucos os que dela são mais próximos. É o local onde a criança se insere desde o nascimento, relacionando-se com objetos e pessoas dentro de um determinado clima.
Moreno descreve cinco etapas da formação da Matriz, que depois resume em três:
1. Fase da Indiferenciação: onde a criança, a mãe e o mundo são uma coisa só.
2. Fase onde a criança concentra a atenção no outro, esquecendo-se de si mesma.
3. Movimento Inverso: a criança está atenta a si mesma, ignorando o outro.
4. Fase onde a criança e o outro estão presentes de maneira concomitante, e ela já se arrisca a tomar o papel do outro, embora não suporte o outro no seu papel.
5. Fase na qual já se aceita a troca de papéis, (inversão de papéis).

Depois ele agrupou as fases, dividindo em apenas três:


1. Fase do Duplo - Fase da indiferenciação e onde a criança precisa sempre de alguém que faça por ela aquilo que não consegue fazer por si própria, necessitando portanto de um ego-auxiliar.
2. Fase do Espelho - onde existem dois movimentos que se mesclam: o de concentrar a atenção em si mesma esquecendo-se do outro e o de concentrar a atenção no outro ignorando a si mesma. (exemplo disso pode ser o de quando a criança olha a sua própria imagem no espelho e não se identifica como ela mesma, ela só diz: olha o nenê.).
3. Fase de Inversão - em primeiro lugar, existe a tomada do papel do outro para em seguida haver a inversão concomitante dos papéis.


Papel é a unidade de condutas interrelacionais observáveis, resultante de elementos constitutivos da singularidade do agente e de sua inserção na vida social.
"O Papel é a forma de funcionamento que o indivíduo assume no momento específico em que reage a uma situação específica, na qual outras pessoas ou objetos estão envolvidos."
Os Papéis Psicodramáticos correspondem à dimensão mais individual da vida psíquica, "à dimensão psicológica do eu", e os papéis sociais, à dimensão da interação social. Estes papéis, também chamados "psicológicos", e os papéis sociais corresponde a conjuntos diferenciados de unidades de ação. Na fase da Brecha entre Fantasia e Realidade, adquiri-se também, portanto a capacidade de iniciar processos de aquecimento diferenciados, para o desempenho de um e de outro tipo de papel. Só assim se exerce a espontaneidade com a adequação da ação do sujeito a seus próprios papéis.
Papéis Psicodramáticos são "personificações de coisas imaginadas, tanto reais quanto irreais".
Dramatização é o método por excelência para o auto conhecimento, o resgate da espontaneidade e a recuperação de condições para o inter-relacionamento. É o caminho através do qual o indivíduo pode entrar em contato com conflitos, que até então permaneciam em estado inconsciente.
Catarse de Integração é a mobilização de afetos e emoções ocorridas na interelação, télica ou transferencial, de dois ou mais participantes de um grupo terapêutico, durante uma dramatização.
Sonho é uma mensagem que o psiquismo envia para si mesmo.
Vínculos Compensatórios são relações especiais que o indivíduo estabelece com as pessoas ou com as coisas, delegando para as outras pessoas ou coisas funções psicológicas de cuidado, proteção e orientação que ele deveria ter tido nos seus primeiros dois anos de vida, mas não teve.
Jogo Dramático tem como objetivo é permitir uma aproximação terapêutica do conflito; através do jogo. A cena dramática é aquela que expressa algum conflito; sem conflito não há dramaticidade e a cena é vazia, segundo o teatro. Propicia ao indivíduo expressar livremente as criações do seu mundo interno, realizando-as na forma de representação de um papel, pela produção mental de uma fantasia ou por uma determinada atividade corporal.
Diretor na realização de cenas ou jogos, geralmente é o terapeuta. É quem dirige o grupo ou a cena, orientando ou sugerindo determinados jogos e papeis.


O Psicodrama possui algumas modalidades:


O Psicodrama Bipessoal, é o atendimento do cliente somente pelo terapeuta, onde o processo psicoterapêutico se desenvolve na relação dois-a-dois e as dramatizações são feitas, freqüentemente, utilizando-se de almofadas ou blocos de espuma no lugar do Egos Auxiliares.
O Psicodrama Individual com Egos Auxiliares é uma das modalidades de psicodrama em que pode se utilizar de pessoas para assumirem os lugares dos personagens que o cliente solicita.
O Psicodrama Grupal é das modalidades do psicodrama a mais eficiente, pois além de possibilitar todas as vantagens do psicodrama individual com ego possibilita ao cliente lidar com sua intimidade frente a um público, numa relação mais próxima das relações da vida real, diminuindo a distância entre o vivenciar terapêutico e o vivenciar real.
Os Egos Auxiliares em princípio, é todo indivíduo que, ao contracenar com o cliente, joga o papel de pessoas de sua relação ou de figuras de seu mundo interno, figuras já existentes ou não, mas desejadas.

Jacob Levy Moreno

Nascido em 1889, de origem judaica. Fez faculdade de medicina, clínica de psiquiatria em Viena, onde conheceu Freud.
Um de seus primeiros trabalhos, foi com um grupo de prostitutas, utilizando técnicas grupais. Depois trabalhou em um campo de refugiados tiroleses, observando as interações psicológicas.
Em 1912, fundou o Teatro Vienense da Espontaneidade, onde começou a formar suas idéias da Psicoterapia de Grupo e do Psicodrama.
O grande ato público de Moreno, foi no Teatro Komödien Haus. Ao se abrir a cortina, havia uma coroa numa cadeira de veludo, espaldar alto e dourado, como um trono real. Seu público era da população de Viena pós-guerra. O tema utilizado por ele, era a busca de uma nova ordem de coisas, buscando no público os que tivessem espírito de liderança, sendo o rei por algum momento no qual o júri seria o resto da platéia. Moreno depois descreveu: "...Ninguém foi considerado digno de ser rei e o mundo permaneceu sem líderes".
Quando lançou o "Jornal Vivo", onde as pessoas a partir das notícias de jornais locais realizavam uma dramatização, criou a raiz do Sociodrama.
Transformou os atores profissionais fiéis ao seu trabalho em "egos-auxiliares".
Assim, Moreno vai desenvolvendo seu trabalho, transformando o Teatro da Espontaneidade em Teatro Terapêutico e este no Psicodrama Terapêutico. Vem deste momento o embrião do Psicodrama de Família e de Casal.
Quando se muda para os EUA, por dificuldades na aceitação de suas idéias na Europa, dizem alguns, começa a propagar o Psicodrama , introduzindo o termo Psicoterapia de Grupo.
1936 em Beacon House, Moreno constrói o primeiro Teatro Psicodramático, que funcionou até 1982 como um centro de formador de profissionais, e onde eram realizadas sessões semanais com psicodrama público.
Teve a desconfiança da comunidade científica, que via nele um pregador messiânico e que buscava nos grupos que propunha tratar, uma ingênua fraternidade. Seus diálogos acabaram por ser com terapeutas de outras linhas, para esclarecer os fundamentos de sua proposta como pesquisador e psicoterapeuta.
Morre em 14 de Maio de 1974, com 85 anos, pedindo para gravar em sua sepultura:
"Aqui jaz aquele que abriu as portas da psiquiatria à alegria."

Closer - Perto Demais

Concordo com Caetano Veloso, "de perto ninguém é normal". Mas "Closer - Perto Demais", de Mike Nichols, me deixou pensando diferente: de perto, somos normais demais.
O filme é uma demonstração tocante de nossas impotências e incompetências sentimentais. Se você quer saber por que, em regra, somos infelizes em amor, não perca.Para não estragar o prazer de quem não viu o filme, nada de resumo, apenas as reflexões fragmentárias com as quais passei a noite, depois de ter assistido a "Closer - Perto Demais".


1) Por que, no meio de uma história amorosa que funciona, um encontro (que sempre parece mágico) pode levar alguém a trocar a intimidade de um casal companheiro por uma visão?

Os evolucionistas dizem que os homens são infiéis por necessidade biológica. Para que a espécie continue, os machos seriam programados com o desejo de fecundar todas as fêmeas possíveis. A teoria tem uma falha: as mulheres são tão infiéis quanto os homens (embora os homens se recusem a acreditar nessa banalidade).

O senso comum tem outra explicação: a paixão iria se apagando com a repetição, os humanos gostariam de novidade. Pequeno problema: a idéia de que a novidade seja um valor é especificamente moderna; no entanto a inconstância em amor é um hábito antigo. Outro problema ainda maior: na condução de nossas vidas, somos obstinadamente repetitivos. Insistimos nas mesmas fantasias e nos mesmos sintomas. Contrariamente ao que diz o provérbio, errar é divino, perseverar é humano. Por que seria diferente em matéria amorosa? Como pode ser que um encontro, em que mal se sabe quem é o outro ou a outra, contenha uma promessa que basta para levar alguém a dar um chute num amor que dura?Tento responder: apaixonar-se é idealizar o outro, durar no amor é lidar com a realidade do amado ou da amada. Antes de ponderar os charmes da idealização, duas observações.Um impasse: para manter a paixão, devo continuar idealizando o parceiro. Mas, para idealizar o outro, devo mantê-lo a distância. Se mantenho o outro a distância, renuncio aos prazeres de amor, companheirismo, cumplicidade, convivência.

Um paradoxo: se me separo porque me apaixono por outra ou outro, o parceiro que deixei se distancia de mim, portanto volto a idealizá-lo e a me apaixonar por ele.


2) Por que gostaríamos tanto de idealizar o outro que vislumbramos num novo encontro? Uma nova paixão amorosa é provavelmente o sentimento que mais pode nos transformar, para o bem ou para o mal. Por exemplo, se o outro me idealiza, carrego seu ideal como um casaco novo: modifico minha postura para que o pano caia bem no meu corpo. De uma certa forma, tento me parecer com o ideal que o outro ama em mim.

Cada amor, quando começa, é uma aventura. Não porque encontro um novo parceiro, mas porque, ao me apaixonar, descubro ou invento um novo ideal e, ao ser amado, mudo para me aproximar do que o outro imagina que eu seja.

A inconstância amorosa talvez seja a expressão imediata do desejo de mudar -não de trocar de parceiro, mas de se reinventar.Não é estranho que, na hora em que um amor começa, alguém decida se dar um novo nome. Nenhuma mentira nisso, apenas a convicção e a esperança de que a paixão nos transforme.Infelizmente, mudar é difícil: a sedução exercida pelos novos amores é uma veleidade, um pouco como as resoluções de que as coisas serão diferentes no ano que começa.


3) Dizem que um casal que se ama briga muito. O uso erótico das brigas é conhecido: a paz se faz na cama. Menos conhecido é o uso amoroso das brigas: chegar ao limite da ruptura pode ser um jeito de recomeçar, de voltar ao momento inicial da paixão, quando ambos esperavam que o amor os transformasse.Problema: ninguém sabe qual é o ponto de equilíbrio além do qual as brigas não garantem renovação nenhuma, apenas desgastam um amor que se perde.


4) Alguém se apaixona por outra pessoa porque, ele se queixa, sua parceira precisa dele. É aquela coisa: seu amor me exige demais, você me sufoca, me prende. Isso, é claro, é um jeito de dizer: com você sou sempre o mesmo. Também é uma projeção: separo-me porque não agüento minha própria dependência de você. Visto que me detesto por estar a fim de lhe pedir amor a cada minuto, acho intolerável que você me peça. Quem pensa e age assim, em geral, fica sozinho no fim.


5) Um homem volta para o lar depois de ter estado nos braços de outra. Sua mulher pergunta: você me ama ainda? Ela tem razão, é a única pergunta que importa.Uma mulher volta para o lar depois de ter estado nos braços de outro. Seu homem pergunta: você esteve com ele? Insiste: quero a verdade. Pede os detalhes: gostou? Gozou? Onde aconteceu, em que posição, quantas vezes?

O ciúme feminino é uma exigência amorosa. O ciúme do homem é uma competição com o outro, um duelo de espadas, uma esgrima homossexual que tem pouco a ver com o amor pela amada e muito a ver com as excitantes lutinhas masculinas da infância.Enfim, quem sabe o filme nos ajude a inventar jeitos de amar menos desafortunados e mais interessantes.


Fonte: CONTARDO CALLIGARIS é psicanalista, doutor em psicologia clínica e colunista da Folha de São Paulo. Italiano, hoje vive e clinica entre Nova York e São Paulo.